26.1.13




Em 1985, Roberto Barbosa parte para Macau ao serviço da Fundação Gulbenkian. O seu trabalho é fotografar a cidade para ilustrar a candidatura a Património Mundial da UNESCO. Durante três meses, Roberto Barbosa percorre exaustivamente as ruas de Macau. Fotografa sem parar o bulício da cidade. As vielas mais recônditas. Aqui um velho lendo o jornal. Ali uma mulher nua que se oferece no meio de caracteres indecifráveis. A neblina que esconde um velho junco. Dragões cerimoniais em jardins teatrais. Crianças tímidas atrás de portas misteriosas. Pontes que separam margens. Ilhas ignotas perdidas na monção… Durante esse período, Roberto faz mais de 2000 slides.
Roberto Barbosa morre, subitamente, em 2007. O seu espólio é vasto e está, na sua maioria, por tratar. Centenas de caixas por classificar. À medida que avançamos no trabalho, Macau surge em todo o seu esplendor. Uma visão encantatória de uma cidade que não conheço. De um Oriente misterioso a que nunca fui. Vou viajando naqueles slides de 1985. Viajo por um Macau que já não existe. Viajo pelos olhos cinematográficos do Roberto. Macau passa a ser uma obsessão para mim. Macau é aquilo que vejo? Haverá outro Macau? Preciso descobrir. Descobrir os passos que Roberto percorreu.


Este é o livro. Fotografias impressionistas de um Macau desconhecido. Um diálogo onírico de símbolos. Uma História desvendada. Uma peregrinação imaginária.

O vento não vem. 

Cheguei. Oriente desconhecido. Terra por desvendar. Neblina opaca. Calma quente. Um calor surdo. O ar não sopra. O vento não vem. A respiração aguarda. Cheguei numa partida sem fim. Macau.

O céu não está em lado algum. 

A terra está no mar. O mar está por todo o lado. O céu não está em lado algum. Um oceano que tudo cobre. Um mar eterno que tudo alcança. Um horizonte sem fronteiras. Perco-me sem limites. Deixei de ver. Deixei de ouvir. Apenas sinto.

Fogem cegos. 

Barcos que são sulcos. Riscos na maré. Fogem cegos. E eu fujo com eles, cego de mim. Viajo nos traços do tempo. E sobre mim caiem séculos e milénios. Caiem os deuses e os demónios. Amores e desamores. E fico num torpor infinito olhando o espaço que não existe.

Em breve seria Amacao. 

Depois da chegada do navegador Jorge Álvares em 1513, diz-se que foi o contributo português para vencer o terrível pirata Chang-Tsé-Lao que terá sido decisivo para o estabelecimento comercial em Macau. O porto de A-Má, nome da deusa, em breve seria Amacao, Macao e, finalmente, Macau. Durante quatrocentos anos foi o baluarte português no longínquo Oriente.

Ainda não sou. 

Montanhas distantes. Gaivotas gritando. Um bailado abstracto. Uma coreografia intemporal. Barcos que são cais. Ondulação inerte. Subo na tensão dos mastros. Viajo no diálogo das velas. Fujo na prisão das amarras. Um mar sem reflexo. Olho sem me ver. Ainda não sou.

Estávamos em 1550. 

Nos tempos antigos, Macau era uma pequena povoação. Alguns quarteirões, igrejas e residências. A gente portuguesa era turbulenta e indisciplinada. O Capitão-Mor das viagens da China e do Japão era o responsável pelos assuntos portugueses. A coroa portuguesa ganhou o monopólio do comércio entre a China, o Japão e a Europa. Estávamos em 1550. Macau floresceu.

Discuto quem sou. 

Entro nas ruas cinzentas. Lembro-me daquele homem. Revejo-o no tempo passado. Quem era eu antes de ser? Teria eu sido ele? De repente parece que não existo. Que sou tudo e todos e nada ao mesmo tempo. A cidade entranha-se. Pára o trânsito e páro eu. Discuto quem sou. Terei sido muitos eus? Quantos fui antes de vir aqui? Este é o fim ou o princípio? Estou no meio do caminho? Há caminho?

A primeira “idade de ouro”. 

Em 1580, com a subida de Filipe II de Espanha ao trono de Portugal, Macau ficou numa situação delicada. As autoridades chinesas tinham cedido Macau à coroa portuguesa e não à espanhola. Talvez por isso a bandeira portuguesa continuou a ser içada durante todo o período filipino. Ironicamente foi durante este período que Macau atingiu grande prosperidade. A sua primeira “idade de ouro”.

Labirintos de almas. 

Há um mundo que teima em se esconder. Vejo sem alcançar. Quero entrar e não posso. Sou um viajante sem rumo. Por detrás do biombo escondem-se sinais que não entendo. Entrevejo luzes miríficas, centelhas divinas, explosões sem ruído. Pressinto corredores sem fim. Labirintos de almas. Aonde me levará este caminho?

Uma cidade que fervia. 

Macau era, então, uma cidade que fervia de actividade. Uma das metrópoles mais movimentadas do Extremo-Oriente. A rota do Japão tornou-se extremamente lucrativa. O Japão não autorizava a entrada de outros navios que não os portugueses. Em Cantão, os navios portugueses pagavam para entrar menos dois terços que os navios de outros países.

Estou noutro mar. 

Reflexos da cidade que não dorme. Tudo se compra. Tudo se vende. As ruas levam-me na corrente. Desaguo num mar de gente. Um bulício que fala. Uma fala que não entendo. Começo a sentir-me longe, cada vez mais longe. Deixei o meu oceano. Estou noutro mar. Uma estranha sensação de abandono. Um caminho sem retorno.

“Não Há Outra Mais Leal” 

Depois da Restauração, em 1654, D. João IV manda colocar no Senado da cidade o título de “Não Há Outra Mais Leal”. Curiosamente é no século XVII que começa o declínio comercial de Portugal em Macau. A feroz concorrência holandesa e inglesa. A perseguição dos católicos no Japão. O fim do monopólio português no comércio com a China.

Ela não está. 

Um chapéu esquecido. Um amor perdido. Há um barco a sair, outro a entrar. A vida segue o destino da corrente. Estou sozinho naquele muro. Sou a palha daquele chapéu. Sou a neblina daquele barco. O chapéu sabe o que eu não sei. Sabe do fado e da maré. Sabe do nevoeiro que me percorre. Sabe que ela não está. Sabe que deixou as marcas da paixão.

Os destinos de Macau. 

No século XVIII, as autoridades regionais chinesas impuseram uma crescente intervenção nos destinos de Macau. Havia a cobrança de impostos chineses. O estatuto especial dos chineses que só podiam ser julgados por mandarins. A partir de 1736, as autoridades chinesas, abusando da fraqueza portuguesa, impuseram um mandarim local em Macau com plenos poderes de autoridade.

Queima tudo o que eu era. 

Sou dúvida. Interrogação que não entendo. Certeza que não sinto. Passeio pelas alamedas de sombra. Acácias floridas. Árvores de S. José. Uma voz distante chama. Uma chama que arde. Arde e queima tudo o que eu era. Tudo em que eu acreditava. Em mim ficou o odor de incenso. Uma nostalgia branca feita de nada. Um futuro novo por desvendar. Porque só cheguei agora?

Receio de perder. 

Em 1884, na sequência da 1ª Guerra do Ópio, os ingleses ocupam a ilha Vitória. Assim nasce Hong-Kong, distante apenas 60km de Macau. A maioria das companhias coloniais transfere-se para Hong-Kong, relegando definitivamente Macau para uma posição secundária. Só então Portugal acorda e decide intervir, no receio de perder o território.

Os antepassados aguardam. 

Espíritos malignos. Demónios famintos. Fantasmas errantes. Papéis queimados que sobem ao céu. Oferendas rituais. Ofertas de uma vida para a outra. Os antepassados aguardam. Tudo lhes é dado. A prosperidade está nos dois mundos. A vida continua na morte.

Ocupação perpétua. 

A partir de 1845, a cidade é declarada porto-franco. É nomeado um governador, João Ferreira do Amaral. Os chineses passaram a pagar impostos, o mandarim foi expulso, a alfândega chinesa foi fechada. O governador português acabou assassinado. Segue-se a batalha de Passaleão ganha pelos portugueses. Em 1887 foi celebrado o tratado de “Amizade e Comércio Sino-Português” que legitima a ocupação perpétua de Macau pelos portugueses.

Nove filhos tem o dragão. 

Olhos de tigre. Corpo de serpente. Patas de águia. Orelhas de boi. Rei dos mares. Mestre dos ares. Dono da terra. Senhor da criação. Nove filhos tem o dragão. Energia que tudo destrói. Força que tudo transforma. Renascer permanente. E a dança segue. Ondulando na perseguição da pérola sagrada. Eterna busca da sabedoria.

Um jogo de sombras.

No final do século XIX, a China começa a emergir como um colosso mundial. A situação de Macau era muito complexa. Portugal só permaneceria em Macau se e enquanto a China o entendesse. O equilíbrio era precário. Um jogo de sombras. Macau, beneficiando da sua situação privilegiada, acabou por fazer das fraquezas forças.

O destino que se perde.

Um casino que flutua. A vida que se joga. O destino que se perde. Acaso. Sorte. Jogo no destino e o destino joga em mim. Verso e reverso. Tudo é jogo. Tudo é vida. E a vida perde-se sem perder o jogo. E o jogo perde-se sem perder a vida. A vida é um jogo de rir e chorar.


Fortunas

Em 1847 o jogo foi legalizado. O negócio do ópio faz fortunas. Durante a II Guerra Mundial, a neutralidade de Portugal potenciou o aumento exponencial da população refugiada em Macau. Floresceram negócios relacionados com a alimentação e bens de primeira necessidade

Persigo o meu desejo

Os vestígios dela estão por todo o lado. Ainda não sei quem é. Talvez não exista. Talvez seja a minha imaginação que a vê. Adivinho a sua presença nas ruas tortuosas da cidade antiga. Na vertigem das ladeiras íngremes que sobem a Fortaleza do Monte. Nos riquexós adormecidos que povoam a minha alucinação. Persigo o meu desejo. Sofro o meu destino.   

Macau transforma-se.

A partir de 1944, apesar das restrições ao comércio internacional de ouro, Macau não é incluído na lista de territórios abrangidos pelas limitações. Macau transforma-se num dos principais centros mundiais de comércio de ouro. Depois de 1952, Macau viu reforçado o seu papel na entrada de bens estratégicos para a República Popular da China. Uma excepção ao embargo internacional.


Venho de parte incerta.

Olhos oblíquos. Portas entreabertas. Sorrisos tímidos. Buracos negros de curiosidade. Estou naquele mundo sem lá viver. Sou estrangeiro. Venho de parte incerta. Vou para não sei onde. Parei aqui e daqui não consigo sair. À medida que avanço sou já estrangeiro de mim próprio.


A presença portuguesa.

A presença portuguesa era consentida de acordo com os interesses da China. Macau foi sempre um território chinês sob administração portuguesa. O principal erro político de Portugal foi não ter reconhecido o governo da República Popular da China, após a proclamação de 1 de Outubro de 1949.


Chá fervendo

Hesito. Gente que fala sem parar. Palavras que não entendo. Respira-se um ar que não conheço. Homens sentados. Chá fervendo. Conversas quotidianas. Frases soltas. Expressões mudas. Sorrisos herméticos. Tabaco. Fumo. Cheiro antigo. Odor ancestral. Entro sem saber. Fico sem querer.


À beira de se perder

Em 1966, Macau esteve à beira de se perder. A inexistência de um canal diplomático com a China potenciou o aparecimento de figuras importantes de Macau arvorando-se em intermediários. Portugal ficou dependente desses contactos. Para agravar a situação, foram toleradas em Macau actividades de associações e de agentes ligados ao governo nacionalista da Formosa.


A porta era eu

A porta era eu. A minha única fronteira. Homens seculares. Desejos ancestrais. Caracteres indefiníveis. Quero ser o bule. Quero ser o chá. Quero ler as mensagens indecifráveis que me confundem. Quero entrar naquele mundo que me perturba. Quero devorar o desejo que me persegue. Cada vez estou mais dentro. Cada vez me sinto mais fora.


Guardas Vermelhos

Nesse ano de 1966 a Revolução Cultural chegou a Macau. Chegou sem que as autoridades portuguesas se tivessem apercebido. Mais do que um protesto contra os portugueses, mais do que a intenção de integrar Macau na China, os incidentes visavam mostrar a Mao-Tsé-tung que Macau também era revolucionário. Macau tinha de ter os seus Guardas Vermelhos.

A morte enfrenta-se de barriga cheia

Tudo se come. Tudo se bebe. Come-se com avidez. Com voracidade. Como se a vida fosse acabar hoje. Como se tivéssemos de sair a correr. A morte enfrenta-se de barriga cheia. O nosso lugar na terra marca a nossa hierarquia no céu. Da matéria se fará espírito. Os deuses aprovam. Os homens agradecem.

Começou num incidente

Tudo começou num incidente irrelevante. Uma licença para uma escola popular que tardava em ser concedida. As autoridades portuguesas agiram com violência desproporcionada. A imprensa chinesa amplificou. Os protestos cresceram. As manifestações sucederam-se. O governo de Macau ficou debaixo de fogo, esqueceu o diálogo e a diplomacia. As tensões exacerbaram-se. As posições extremaram-se.


A vida quer mais do que eu

Equilíbrio instável. Vertigem permanente. Fico preso na neblina que me rodeia. Bambu resiliente. Resisto sem querer. Resisto porque a vida quer. A vida quer mais do que eu. Passa gente que não me vê. Espero que ela olhe. Espero que ela olhe e me veja. Estou sem destino. Aguardo um sinal.

Nunca mais seria o mesmo

No dia 3 de Dezembro de 1966, os manifestantes invadiram o Largo do Leal Senado gritando empunhando o Livro Vermelho. Grupos dirigiram-se à esquadra da polícia, com evidente intenção de a tomar de assalto. A polícia abriu fogo. A confusão generalizou-se à cidade inteira. Em dois dias de convulsão social houve 8 mortos e 200 feridos, todos chineses. O futuro de Macau nunca mais seria o mesmo.

Uma insónia sem angústia

Um sono milenar apodera-se de mim. Como se nunca tivesse dormido. Uma vida sem sonhos. Uma insónia sem angústia. Quero fugir e já não posso. E ficando sinto que não mais acordarei. Do outro lado há um mundo de vertigem. Uma vertigem que eu não domino. E durmo… durmo. E sonho… sonho.

A violência acabou

A violência acabou. A repressão amainou. Começou a pressão política. Exigências pesadas e inegociáveis do lado chinês. Em Lisboa, Salazar não tomava posição. Finalmente, a 29 de Janeiro de 1967, o Governo de Macau e as autoridades chinesas chegam a acordo. Evitou-se uma sublevação generalizada, mas ficou claro que Portugal apenas estaria em Macau enquanto a China quisesse.


Vim para ficar

Já nada quero. Já nada existe. Acho que já não sou. Talvez tenha perdido a razão. Deambulo pela cidade ao som de música celestial. Falo sem falar. Entendo sem entender. Vejo sem ver. Os deuses sopram em mim como vela sem pano. A neblina já não assusta. Deixei de ter calor. O mar fala comigo das tempestades que me assolam. Vim para ficar. Ela é o caminho.

A pérola mais preciosa

A transferência da soberania de Macau entre Portugal e a China aconteceu a 20 de Dezembro de 1999. Macau reencontrou o seu destino. A economia de Macau reforçou-se, assente no turismo e no jogo. Hoje, reconhecer esse Macau antigo é uma tarefa quase arqueológica. Macau, mais do que um sítio, é um conceito. Um conceito que vive na diáspora de si própria. Um Oriente que esconde a sua pérola mais preciosa.

E fico eternamente à espera

O autocarro passa. Vejo-a de relance. Aceno desesperado. Desaparece ao virar a esquina. Um sorriso enigmático deixa em mim uma esperança pueril. Só podia ser ela. Ter-me-à visto? Sinto em mim a monção que me invade. Um tsunami que me abala. Um tufão que me destrói. E fico à espera eternamente. Macau.

Roberto Barbosa em Macau (1985). Fotografia de José Maria Tavares da Rosa.


Jorge Pinheiro             
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Roberto Barbosa
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15.1.13













Venho por este meio convidar-vos a visitarem o meu Website.
Espero que se divirtam neste passeio pelas minhas obras.

Juliane

5.1.13

 Maratona Fotográfica Roberto Barbosa!
 











O IADE e a Baixa-Chiado PT Bluestation estão a promover uma Maratona Fotográfica em homenagem a Roberto Barbosa, fotógrafo e antigo docente do IADE, falecido em 2007.

Participa e mostra-nos como TU vês a cidade de Lisboa... Habilita-te a ganhar um telemóvel com câmara fotográfica ou um workshop de fotografia ;)

Consulta aqui o regulamento: http://www.iade.pt/media/253603/iade_pt_maratona_fotografica_regulamento.pdf